era pequeno
muito
tinha olhos vivos e uma queimadura no rosto
mal respirava
bufava
mostrava sua raiva por estar ali
sentado
de frente pra quem nunca nem tinha visto
o pior
ter que aceitar as ordens
era assim que sabia da escola
o lugar de sentar e receber ordens pela cara
odiava
naturalmente odiava
seja lá o que fosse
ou quem
se tocassem nele era como um tapa
soco
quanto mais forte a palavra mais se parece com ele
descrever o garoto é duro
dói mesmo depois de anos
se deixar ficar entre as linhas da sala e com a bunda na cadeira
ainda que as pernas balançassem
e os olhos virassem em direção oposta aos dos outros
era coisa pra quem nunca tinha passado por onde ele passou
era acostumado a curvas
aos becos que levavam pra longe do perigo de estar entre paredes e longe da rua
era bom nisso
só não dava pra acertar sempre
vez por outra era pego
resvalava numa quina qualquer e agarravam seu destino de pardal solto em quintal dos outros
contava história de pirata
que saqueia baú de ouro
e se acha por isso
fazia fama de mal
de corajoso
pequeno que só
mas crescia nos pulos que dava lá pela Lapa toda noite
tinha força e corria bem
perfeito
quase sempre
só em dias de chuva e chão molhado
o chinelo escorregava e lá ia ele pra onde não queria por nada desse mundo
daí o ódio
o horror ao enquadramento da sala de aula
ainda que ali fosse seguro
sem pulos e também sem lei
a lei que tinha era mole de se safar
meia dúzia de gritos de uma mulher ali na frente dele
e uma quadra enorme pra se esconder depois de descer escada correndo e xingando
teve um dia que não apareceu
estranharam
porque mesmo com olheiras e roxo pelo corpo todo ele subia pra sala
marcava uma presença e fugia
mas naquela manhã não
a mulher sentiu alívio
o lugar ia ficar menos ruim de se estar
mais tarde em casa viu o garoto estampado na página do face
encostado numa parede conhecida
no caminho de sempre
reconheceu pelo olhar antes da marca do rosto
era por ali que falava
berrava sua raiva por ter mais uma vez sido pego
e com legenda
de bandido perigoso do lugar
parecia menor ainda
porque sem a cadeira da sala
no chão
diminuía
mas a legenda
era ela que o engrandecia
talvez outra hora
quando conseguisse pegar seu celular de volta
encontre força pra continuar
afinal a fama era tudo no lugar de onde vinha
a mulher não viu mais o garoto
o menino que lhe dizia não querer ficar ali e calculava a altura pro pulo até o cordão falso dela
ela torcia por outra chance de seus braços se esbarrassem por descuido de novo
ela torcia por outra chance de seus braços se esbarrassem por descuido de novo
quem sabe assim dissessem a verdade um pro outro
que os dois estavam com medo
os dois não queriam estar daquele jeito ali
entre as paredes
sufocados pela ganância dos de cima
calcular o pulo
ele ensinava bem isso
mas pouco aprenderam um com o outro
só se deixaram estar ali
até serem apanhados
