quarta-feira, 17 de novembro de 2010


9801/2010/Bento Ribeiro


Se de tudo fica um pouco

Fica um pouco de tudo vivido aqui

na sala de aula

nos corredores da escola

no recreio

na quadra

e nas aulas de Português

nos números da Matemática

do corpo humano na aula de Ciências

do 'What's up?" de Inglês

dos mapas

da História

das nossas tentativas de acertar

e também dos dias que erramos

dos gritos

muitos

e dos silêncios

raros

(quando 'passava um anjo')

Dos nossos lanches

Se de tudo fica um pouco

Fica um pouco do sorriso do Diguinho

das birras engraçadas da Ellen

das brincadeiras doidas do Jonatha

das músicas e danças improvisadas do Jacó

do Willian e da Maiara Cristina

das ordens da Rayane

da saudade da Tutinha

da Daiana e da violeta que ela cuidava antes da Manuela chegar

da calma do Flávio

e do mau humor da Dayse

e também do bom humor da Dayse

das histórias da Maiara : "Foca em mim!"

do Michel e suas músicas que só ele ouvia

e do Fernando com sua seriedade e jeito de bom menino

da Michelle com sua voz de moça doce

de todas as fugas do Michel Sena

e das suas voltas também

do André e suas tentativas antes de ir

da timidez da Tayline

e das visitas do Raphael pela escola inteira

da coragem da Lorrayne e de seus escritos

da muita pressa do Lucas

da turma da Dulce

Se de tudo fica um pouco

Fica muito de nós e da nossa força

em tudo que vivemos




Willian


Como quem quer dominar com sua presença
Aparece
Procura romper as barreiras
Tenta marcar seu território
Rapaz bonito
De muitos desejos
Presença que marca
Desenhos dele mesmo difíceis de se entender
Com o tempo mostrou-se amigo
De ombros largos para apoiar
Pinta com cores fortes a vida
Faz planos de ser feliz
E com sua força
Vai









Michele

Sempre dócil
Parece esconder segredos
Como alguém que guarda histórias
É bonita
Encanta pelo mistério














Raphael

Menino bom
Anda pela escola a procura de assunto
Silencioso
É com os olhos que mais fala
E com suas expressões rápidas
Como quem não quer ser descoberto
Lê a vida e as letras com vontade
Cresceu
Aprendeu muito









Rayana

Chegou gritando
Dizendo a que veio
Foi uma feliz conquista
Menina
Ri com os olhos
E divide a vida com os outros
Traz idéias
Realiza
Está sempre por perto
Espanta o silêncio
Agora com mais doçura
Porque não precisa se esconder
É uma de nós
E como igual está à vontade
Faz as honras da casa
É nossa anfitriã
E isso é bom
Quem chega já vê alegria
Porque com ela ninguém está triste





Michel Augusto

Ele e a música
O tempo todo parece voltar-se pra dentro
Descobrindo coisas pra depois contar
Está na sala como bom amigo
Sereno
Confiável
Querido











Dayse

Esperta
Sabe o que quer
Difícil mesmo é ganhar nas divididas
Mas ela joga bem
No campo e na vida
Dribla as tristezas
Encara de frente como no penaulti
Amiga
Passa a bola pra todo mundo jogar
Não fica na retranca
Vai
Arrisca
E mostra como fazer quando se acredita








Valdo Lucas

Já no nome pode ser dois
Ora Valdo
Ora Lucas
Depende da intimidade
E por ai se conhece o rapaz
A proximidade nos apresenta um garoto como todos os da sua idade
Que gosta da vida
Da aventura
Dos perigos de friozinho na barriga
É assim
Vai crescer bonito
Escolhendo o melhor caminho
Pra ser feliz








ELLEN

Pinta os olhos
E se mostra mais bonita
Querida garota
Com ela vale como se fala
Muito
Percebe os tons
Não gosta de fala errada
A que não soa bem aos ouvidos
Prefere a de tom macio
Bater de frente
Nem pensar
É com jeito
Com manha
Que se ganha
O sorriso da menina








Lorrayne

A que luta de verdade
Consegue dar volta na dor
Da vida de gente grande
Sonha
Brinca com o amor
Ri de tudo
É forte
Demais
Merece respeito
Um coloUm carinho

sábado, 9 de outubro de 2010


Carolina


Reconheço a Carolina do Chico na menina da sala

guarda como a dos versos o peso do mundo

dos adultos

da vida ainda não escolhida

Quando as mãos não conseguem desenhar palavras

é pela boca que saem as histórias

bem contadas

Gosto de ouvir

de saber o que pensa sobre os dias

Aprendo com ela

mais que ensino

Porque não se ensina na escola tudo

o que de verdade importa saber

menos ainda como buscar os sonhos

Dulce

Renan


digo que parece príncipe

saído de livro bonito

de capa dura e ilustração bem feita

todos os traços bem desenhados

tem requinte nos gestos

disfarça um sorriso de orgulho quando ouve elogio

mas no fundo sabe da sua nobreza

que veio de muito tempo

de lugar lá de longe

separado daqui pelo oceano

pelas forças da natureza

que insistem em suas marcas

nos filhos que moram aqui


dulce




Flávio


quase não se ouve a voz

os colegas falam por ele

é garoto sério

de se confiar

traz com ele uma promessa boa

de que tudo vai dar certo


dulce



JOnatha


Jeito bom

rápido

desliza quando se faz moleque

e brinca

e ri

e faz cara de feliz

nunca fala de tristeza

olha que sabe bem dela

não se faz de rogado

e pede o doce

e a resposta certa

e também carinho

tudo no meio da roda

quando ela se esquece de girar ao contrário

e vai do jeito certo

como a vida prometida pra todo menino

dulce



Tayline e Jéssica


chegaram meio de lado

do outro lado

pareciam diferentes

mas não

junto com o tempo

mostraram-se iguais

fizeram amigos

confidenciaram segredos

ouviram histórias desconhecidas

e entenderam

hoje são elas mesmas mais os outros

soma
porque não chegaram ali por acaso

dulce


Fernando


o corpo de rapaz guarda uma alma mais velha
os olhos atestam a idade

na agilidade experiente

entra e sai com pressa

busca uma saida para além daquele lugar
por isso procura entender os livros
dando seu jeito
faz tudo o que pode
não se deixa aprisionar
fica por querer


dulce

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Para Mayara Cristina


Conta histórias como quem aprendeu nos livros
mas não
a memória da escrita vem de lugar desconhecido
detalhes nas palavras precisas
escolhidas.
Decifrá-la em sua labuta é como ler mais histórias
de fadas
princesas
bruxas divertidas.
Certeza tem quem ouve
que personagens
renascem
em linhas tortas
em espaço novo
para espanto feliz
de todos.

Dulce





Mayara

Tentativa de escrever sobre ela,
porque mais valia desenhá-la,
preenchendo a folha com cores fortes,
linhas retas,
traços marcados.
Também não seria suficiente.
Como deixar que soubessem da sua voz,
se não pelos sons vibrando nos ouvidos da gente.
Seus passos barulhentos arrastam os olhos
desejosos de confirmarem seu caminho.
Transita por todos os lugares:
sai da sala,
desce escadas,
conhece bem os espaços.
Conter sua vontade
impossível.
Só se ela quiser.
E parece querer,
até para procurar a melhor saída
para ajustar-se à vida.

Dulce



Michel

Chegou o "Vagabundo"!
Garoto conhecido na escola
de cara bonita
e jeito de bom malandro.
Reconhecimento.
Voltas pela sala para marcar território
(como se precisasse)
por conta da sobrevivência.
Começo arredio.
Não demorou o tempo de mostrar-se
com suas respostas espertas
e jeito de quem ensina
parecendo até ter vivido mais que sua idade.
Surpresa!
Volta e meia derrapa no descompromisso
foge errando a porta da sala.
Parece estar tempo demais ali,
mas também não quer deixar o lugar
onde mais que um nome é personagem.
Tomara Deus que não se perca!

Dulce






quinta-feira, 24 de junho de 2010

tiramos o coração do lugar
mexemos em tudo
descobrimos
o corpo
reviramos as folhas
do livro
e nas imagens
e naquele boneco
de se ver por dentro
encontramos respostas
para o jogo do perceber-se
homem
mulher

Dulce
Para Germano,por escolha Jacó

Menino de ginga
dos muitos personagens
Mudou de nome por conta da sua vontade
de mascarar-se
mudar de voz
de corpo
Menino
artista
de público assíduo
Batem palmas
entendem o texto
divertem-se
De novo
a imagem ficará nos dali
nos de perto
porque os de fora não sabem dele

Dulce
O barulho esconde as palavras
incomoda os sentidos
de cara afasta o contato
Os gritos esmagam qualquer doçura
Aprenderam a chegar assim
contrariando regras
abrindo as portas com os pés
Invadem os espaços
Dão a cara a tapa
e brigam por qualquer coisa
Quando se distraem
suavizam o olhar
deixam escapar verdades
Trabalho dobrado
o de perceber o avesso
das marcas
a cicatriz do corte
Mais fácil seria continuar na superfície

Dulce

domingo, 20 de junho de 2010

Hoje entendi você


me olhando


pedindo ajuda


com palavras soltas


no papel os desenhos cuidadosos


a espera de atenção


leitura


tortura


desejo


uma vida toda pra se decifrar


e enganar


não sabe

sabe


tem jeito mais não


senão


o dizer sem palavras


apertadas


o pensar incompleto


deserto


e ainda lá


a faca no peito


lá fora a corrida


por tudo inteiro


perfeito


traduzido em verbo


como no inicio


Dulce

terça-feira, 15 de junho de 2010

Daiana
A violeta na mesa da professora precisava de água
de cuidados
pouco sol
de conversinhas carinhosas
A menina ensinou
assim
tranquilamente
como quem sabe de tudo
que de verdade interessa

Dulce
Para Leandro


Ele olhou para a folha toda escrita
e mesmo sem saber ler
afirmou ser poesia.
Acertou.
Seus olhos entenderam que poesia tem corpo.

Dulce
Ontem os rostos eram outros
as vozes ainda mais estridentes
o tiro de sábado nos ouvidos
a morte do amigo
Mais uma vez a invasão
da vida
da morte
No livro aberto não há explicações
nem no jornal
A verdade está nas esquinas
nas conversas nervosas
na fala de quem viveu
de perto
o choro de medo
Não escrevemos esta história no caderno
não ficará o registro oficial

Dulce

I-
Veio cedo demais
antes do beijo
da mão buscando carinho
das promessas de bem viver
do sonho
do vestido branco
e sandália de salto alto
da valsa
da formatura da escola
antes de ser ao menos filha
e de saber de amor
Veio num corpo de menina
e na vontade de correr com os outros
de dançar no baile
de acreditar no depois
Mas veio
Agora é escolher nome
o de pia
registrar
sem entender
o porquê
da sua barriga
mexer tanto com aquela moça

II-

Não toque:
na pele
na alma
no nome da mãe
se não quiser se comprometer

III-

Fora da idade

da cidade

do esquema certinho

dos 'boyzinho'

Fora!


IV-
Se é pra eu aprender:
que a rua é lugar do perigo
que o morro é outro mundo
que a língua é errada
que a roupa é vulgar
que a sandália é rasteira
que o perfume é barato
que o creme escorre como água
que o amor é feio
que o sexo é primitivo
que o nome é esquisito
que a voz alta arranha
então
melhor eu não ir pra escola

dulce

Conto

Como era ainda menina não convencia muito em cima daquele salto tão alto. Parecia pisar em falso. Tão falso como a calça dos outros que vestia. Era bonita. Sabia do rebuliço que deixava quando passava pela esquina. Tudo que era homem olhava. Sempre foi assim. Desde muito pequena encantava. Dinheiro não tinha pra se enfeitar. A mãe trabalhava duro em casa de família. O pai fazia tempo já tinha se mandado. Também não queria nem saber. Tinha outros irmãos. Mesma mãe, outros pais. Ninguém estranhava isso por lá. Ora um, ora outro... O que não dava era pra mãe ficar sem homem, porque aí ninguém respeitava muito a casa. Pelo menos, era assim que se justificava. Beijou cedo, muito cedo. Não sabe ainda o que é amar de verdade. Aliás, de verdade quase nada acontece. Parece que tudo em volta é de mentira, A professora falou que a história era de ficção. Ficção!? Não entendia nada disso. Da diferença entre o sonho, aquele de quando se está dormindo, e a realidade...Isso sim!. Quantas vezes fechava os olhos e sonhava .Bom demais!!! Ali os pares eram perfeitos, as casa bonitas, tudo tinha seu lugar. A bagunça do real assustava , mas esperava o dia de baile. Sabia quando não era perigoso. Tudo era acertado antes. Era só escolher a roupa. Nem tinha muito lá o que escolher... Como quase tudo era dado pela patroa da mãe, o trabalho era encontrar o mais certo pro seu corpo. Tinha curvas a mais que as meninas da dona. Creme pro cabelo não podia faltar. Cheirava bem. Os garotos gostavam. Esperava até não poder mais a hora de subir. Era tudo amigo, ou quase tudo. Encontrava o pessoal da escola. Escolhia o par da vez e lá ia ela. Suava até não agüentar. Fugia dos homens com seus sexos a procura dela. Não queria assim. De manhã, com o baile acabado, podia dormir. Sabia que o tempo não ia poupar seu destino. Ouvia dizer que podia ser diferente. Uma coisa ou outra ainda entendia. O complicado era entender o caminho. Sabia daquele já andado pelas outras. Não era bonito. Só conhecido. Era bonita ainda. Bonita mesmo. Ainda sonhava.
Dulce Moura
O que será de nós


depois de tudo isso?


Se acalmarem os dias


e restarem alguns personagens aturdidos
com suas assinaturas desvainecidas
comprovando o erro
o medo
Dulce Moura
I-
Os pés arrastavam a raiva
arranhavam a ordem
irritavam
Ela sabia
mas era o possível
o mais imediato jeito de mostrar
o atrito
o abismo
a chegada
num lugar estranho
dos outros
que insistiam em dizer que era seu


II-

O mesmo Português
palavras soltas circulando pela sala
estruturas mal feitas
de uma construção desgastada
Gramática entreaberta indica regras não cumpridas
Falta o afeto
a doçura dos sons
a necessidade de se traduzir sentimentos
Tudo fere

No quadro, a poesia não encontra os olhos
menos ainda o coração
sofrido
endurecido pelo dia lá de fora
pela verdadeira história de cada um
entrando pelos portões arrombados

Duelo
ganha quem espeta até sangrar
Perde
quem percebe a ausência
o descaso

III-

Disseram que ela era filha de não sei quem
Família despedaçada
noites sem sonhos
dias vazios
mandaram guardá-la do perigo
mas esqueceram as grades
então construimos as barreiras com o corpo
mas ele não aguenta
adoece
enfraquece
desiste de ir
deixa o lugar vazio
as portas abertas
e o inimigo entra fácil



Dulce