terça-feira, 24 de novembro de 2015

depois de tempo demais
parou
a mulher
parou
por um tempo
quem sabe
enquanto o sentir for ainda perigoso pra ela
porque entende no toque
percebe nos olhos
e fala com as mãos também
e tudo ficou mais perigoso
sem saber de que modo se comportar
com a boca fechada aceitar comandos
mesmo sem concordar
fingir estar tudo se encaminhando pra final feliz
sabendo não estar
desconfiar de números
ainda acreditar na palavra
mal sabe a mulher estar fora do eixo
num tempo difícil de se lidar
como num palco
numa tragédia
nem sempre anunciada como dizem
já que o inesperado ronda paradoxalmente as cabeças
o mais certo é a tentativa
e mais certo ainda
o erro
então como quem prefere se fazer de fraca
a mulher sai ainda sem terminar a peça
talvez volte num papel mais secundário ainda
escondendo sua mania feia de sentir tudo
respeitando os comandos dados por quem sabe bem o que está fazendo
e o porquê
somos todos bufões
isso sim
que tragédia que nada

quarta-feira, 27 de maio de 2015

o primeiro menor fala muito
desenha bichos
e com pedaços de papel e plástico faz aves de bicos compridos
o segundo menor nada diz
minto
sussurra palavrões e me xinga em voz alta
o primeiro menor provoca briga
talvez pra ter o que fazer fora do seu mundo de faz de conta
também xinga
a mãe e o pai dos outros
e molda caretas
o segundo menor aceita provocações
talvez pra ter o que fazer fora da sua realidade de cão
hoje os dois levantaram pra briga
o primeiro menor se entregou
o segundo menor apertou o pescoço do outro com força
a cena logo se desfez
não haverá maiores apurações
todos sabemos do primeiro
e também do segundo menor
amanhã estaremos todos lá

quinta-feira, 21 de maio de 2015



minha mãe tá aqui

sua mãe é nova demais

não

irmã

não tenho o que dizer pra senhora

pra você

não precisa

ela é assim em casa

mas nem disse como ela é

não precisa


com força de bicho arrastou mesa e cadeira
e disse que o garoto não ia sair

vou mijar no chão

mija então

blasfêmia é palavra que serve aqui
nem é pra completar verso
mas pra dar nome ao verbo

pode xingar mas não sai

a vitória era dela
porque o garoto ficou ali
raivoso e sentado
até bater sinal

agora pode

ele saiu aos pulos
a derrota era dela
quem ganhou mesmo
mais essa
nem estava ali


quinta-feira, 30 de abril de 2015

vestiu camiseta preta e foi
achou que já na calçada fossem olhar pra ela e notar seu luto
tinha olheiras
escreveu poema de madrugada
pensou na escola
na garota que fala batendo palmas porque assim é melhor pra ela
na chatice de entregar notas
acordar cedo e saber que acabou o leite
mais uma vez não foi bem assim
ninguém notou seu luto enquanto tomava uma média com pão na padaria
nem os dois policiais dentro da viatura estacionada na  esquina
talvez estivessem lendo as notícias lá do Paraná
tudo parece tão perto nesse mundo virtual
por um instante teve vontade de xingar e sair correndo
e se lembrou do vinagre na bolsa
na correria pela Rio Branco
de se perder dos amigos
e de cruzar com outros já de volta
anda estranha
imagine se isso é coisa de se pensar de manhã
e com céu nublado
melhor pedir pra contar seu tempo lá na escola
talvez falte pouco pra se aposentar
tudo anda tão rápido e triste nesse mundo real






as bombas de lá não me deixam dormir
acordaram as outras que ainda estão por aqui
dizem que amanhã a aula será sobre sujeito
os indeterminados
mas em "ninguém tem nada com isso:"
o sujeito é simples e se acovarda
oculto na sala dos professores

sexta-feira, 3 de abril de 2015

até segunda dá tempo de chorar tudo
e quando eles voltarem pra sala
o menino já não estará na chamada
excluído
tem vaga na turma 1400 e pouco
risca pra não dar problema no COC
ou então vai mais um com nota baixa pra estatística
segura a turma
passa trabalhinho mais lúdico
pede pra desenhar
mas antes vê se pode prender no mural
só põe homenagem bonita
desenho colorido
os mais feinhos com cara de triste coloca não
repasse aos seus professores

atenciosamente

professora (estando no momento coordenadora) fulana de tal