sexta-feira, 20 de julho de 2012

dizem que os de lá
não sabem o que se passa por cá



são inocentados pela ignorância
pela pouca habilidade
e muitas palavras papéis relatórios
preencher lacunas com números
requisito primeiro de quem chega lá
por cá papéis mal escritos
linhas bem tortas
desenhos da vida cotidiana
que só vira manchete de jornal quando sangra
os de lá escondem-se
agarram-se ao vocabulário  técnico
vazio
enquanto os de cá aprendem novas palavras
e também preenchem lacunas
outras
ocupam papéis
outros
os de lá não se dão bem com os de cá
e fingem
representam mal quando obrigados a chegar mais perto
a linha que os separa não se vê
por enquanto

Dulce



quando os olhares ficam menos embaçados
corro e me ponho na frente
dou meu recado
ganho força
e saio como se tudo fosse mudar pra sempre

Dulce


cada dia uma dor
os dentes
barriga
o corpo todo
mal  sabe a menina de suas dores escondidas
as que não saram com remédios
o médico do posto não sabe dela
eu pouco sei
e aceito suas desculpas
faço curativos imaginários
e espero

quem sabe a vida fique mais leve
e tenha colo de mãe
leite quente antes de dormir
sonhos de menina
e fique bem

Dulce

descobrir como chegar o mais perto possível dele
desafio
se ele se mascara
ainda que sem querer me chama pro jogo
e eu aceito
o lugar do nosso encontro marcado desde o início
fingimos pactos
sufocamos nossos gritos e nossa antipatia
rabiscamos diariammente as folhas em branco do nosso caderno
nenhuma chance
ou raras
muito raras
e eu as perco sempre
desafio
se eu me mascaro
e acabo jogando errado

Dulce

quinta-feira, 28 de junho de 2012

o rato roeu a roupa
dela
aos poucos
no começo cautelosamente
ela nem percebeu
depois
sem cuidado algum
a nudez disfarçada
o incômodo
sentiu-se só
ela e o rato
não havia rei
Roma era muito longe
ali mesmo
na sala
o rato roeu a roupa
e a deixou entregue
exposta
e agora o que fazer
se nem ao menos é rei
se seus gritos não ecoam
ela
sem o rato
agora escondido atrás dos pedaços de pano
muitos
também de outros
o rato roeu a roupa
e ainda quer mais

Dulce

quinta-feira, 24 de maio de 2012

por que ainda quero ficar por lá?
no meio deles
repartindo
o não
dito bem alto
que entra pela janela
sobe as escadas correndo
derrubando tudo
rabiscando os murais coloridos
insisto
volto no dia seguinte
e no outro...
esperando resposta
sei lá de quem
Dulce Moura

parecia a calçada do poema do Oswald

que apanhá muleque?

o quê?

pernas e cabeças pelo pátio

Dulce Moura